dezembro 14, 2004

Anda tudo ligado...

No seguimento da entrada anterior, deixo aqui o depoimento emocionado que me chegou via e-mail de alguém que esteve à beira de sucumbir à Quinta das Celebridades.
É longo, mas vale a pena ler até ao fim, para ver como é que se chega a determinados estados de alma...

Depoimento emocionado de um tal Zé Português* sobre a sua experiência com as drogas.

*(nome fictício para protecção pessoal)

Tudo começou quando eu era criança apenas e me deram a ouvir umas musiquinhas dos Mini Stars, Eu vi um sapo, e coisas assim.
Depois já tinha eu uns 14 anos e um amigo chegou, com aquela conversa de que tens de experimentar, depois quando quiseres é só parar... A coisa até é divertida, etc e tal. E eu acedi, ingénuo e fui na dele.
Primeiro ele ofereceu-me coisas leves, disse que eram coisas bem portuguesas Vamos brindar com vinho verde, coisas de “raiz da terra, que não fazia mal, eram músicas bem portuguesas e tal”… e deu-me ainda – lembro-me bem… – um disco inofensivo do Marco Paulo, outro do Clemente e logo em seguida um do Toni Carreira. Achei baril, uma cena bem portuguesa. Pensei cá para mim: “esta coisa é um bocado kitsch mas enfim… ondas de amor foleiro, tipo empregadinha de balcão… ok.” Não vinha mal ao Mundo.
Mas não eram. Sem eu saber, eram por vezes produtos adulterados, grandes orquestras e tal, mas com a música estrangeira já empacotada, tás a ver. Algumas cenas eram trazidas de fora, com traduções duvidosas, versões com poemas reciclados, amores de pacotilha, etc. E eu a pensar que aquilo era tão português como o vinho verde.
Mas a escolha foi ficando mais pesada, o consumo cada vez mais frequente.
Comecei a frequentar romarias onde o conjunto de baile cantava Apita o comboio para o pessoal pular e reinar e Adeus mãezinha vou partir como slow para o pessoal poder atracar e tal.
Aí conheci um mano que me levou para uma outra trip bem diferente. O tipo era novo católico activo e ofereceu-me um disco do Padre Borga para aumentar a minha fé. Ora eu já tinha ouvido umas canções evangélicas quando era puto, dos Maranata e do António Sala, e fiquei ainda mais indeciso nas minhas escolhas religiosas.
A coisa mexeu muito comigo. Aquela coisa do Jesus da Galileia não sei quê cheirava-me a catolicismo new age um bocado pró pindérico. Mas o caso é que dei por mim a consumir entre grandes ataques de riso. Uma curtição. Baril.
Comecei a ficar agarrado. Foi aí que um belo dia acabei comprando pela primeira vez. Lembro-me de que cheguei à loja e pedi:
- “Dê-me um CD do Emanuel; aquela do pimba, faz favor!” – baixei os olhos e disse que era para oferecer a um amigo, só para gozar…
Era o princípio de tudo!
O vendedor – o man conhecia bem esta timidez inicial - deu-me a experimentar algo diferente e ofereceu-me um CD antigo da Linda de Suza a cantar oh malhon malhon, acompanhado a bateria e guitarra eléctrica. Uma ganza.
Ele dizia que era “giro, meras curiosidades, para ouvir sem complicação e assim, sabe, … coisa leve...” Dizia o mangas: - “Já temos tanta pressão na nossa vida que um tipo precisa é de se evadir… e tal”.
Depois informou-me que “coisas engraçadas doutros tempos também ainda temos: - Artur Garcia, António Calvário, Madalena Iglésias, Gabriel Cardoso, o que quiser, letras bonitas, tudo canções de amor, um mimo.”
Ouvi de tudo um pouco e comecei a ficar aturdido, um pouco envergonhado; mas voltava sempre, por vezes só para ouvir um bocadinho e fumar uma passa. Exultei com a vitória de Rui Bandeira no Festival. Decorei as emocionantes letras do Marante. Seguia os Excesso e os Milénio para todo o lado.
Mas aí o vendedor começou a atacar-me com coisas piores: o Tchan, o Duo Ele e Ela, É o bicho, e muitas coisas mais.
Após o uso contínuo, eu já não queria saber de coisas leves, eu queria algo mais pesado, mais desafiador, que não me fizesse pensar na minha dependência e de preferência que me fizesse mexer os quadris como eu nunca fizera antes.
Então, esse meu amigo levou-me um dia a uma romaria a sério, daquelas com muito fogo e milhares de pessoas onde vi pela primeira vez um concerto do Roberto Leal! E aí eu dei pulos, pô…!
Esta dependência galopante passou a ser o centro da minha vida, a razão do meu existir. Pensava só em consumir mais e sentia essa necessidade por todo o corpo, só já suspirava por estas cenas e só vivia para aquilo! Drogava-me com doses maciças de Big Brother e lia tudo sobre a Lili Caneças. Ouvia Miguel e André com paixão.
Mas, depois de muito tempo de consumo, a droga perde efeito, e um tipo começa a querer cada vez mais, mais, mais... Comecei a correr atrás das romarias e concertos do Nel Monteiro e da Mónica Sintra, comprava as revistas que tinham na capa os lábios novos da Bibá, os namorados da Elsa Raposo, sei lá…
Comecei também a frequentar o sub mundo das cassettes piratas e a correr atrás de tudo o que encontrava.
Foi a partir daí que começou a minha decadência.
Resolvi experimentar algo mais pesado e esse mesmo dealer ofereceu-me um dia um CD de Micaela e outro da Romana para eu “experimentar novas sensações”. Foi fundo, meu.
Mas depois de muito tempo de consumo as sensações que esta droga nos dá perdem de novo o efeito e um mano começa a querer cada vez ainda mais...
Quando dei por mim, já estava com o cabelo pintado de loiro, um piercing no sobrolho e o peito depilado. Ouvia o Saúl e delirava com o bacalhau quer’alho e o Quim Barreiros e suas lições de culinária. Decidi entrar nas cenas fortes.
Deu-me uma panca e comprei todos os discos com canções do Crispim; entrei para um grupo de fans da Simara. Tornei-me um junkie.
Só já era feliz com outros viciados como eu, e a minha maior ambição era fazer um casting para integrar aquele concurso do “ponha a mão no capot até cair” ou “coma aí uma parga de minhocas só para a gente se rir”!
Ia aos shows todos da Ágata onde cantava em coro aquelas músicas que nos puxam ao sentimento, e onde eu e mais outros 12 infelizes tão “agarrados” como eu dançávamos alguns passinhos ensaiados, sorríamos e fazíamos gritos e sinais combinados.
Lembro-me que não perdia um programa do Big Show nem do Carlos Ribeiro Tinha ataques de raiva se àquela hora não conseguisse ter a minha dose desses programas. Ficava furioso e os olhos saíam-me das órbitas.
Já via a Chiquita em sonhos, ouvia o Toy a gritar comigo, decorava rap urbano e imaginava a Cinha Jardim a dirigir-se para mim a cavalo em slowmotion.
Delirava, claro.
Endividei-me para comprar a linha de jóias da Lili e o trem de cozinha da Filipa. Tinha descompensado completamente.
Acordava e parecia que o mundo mudava todos os dias qualquer coisa. Os ministros e secretários de Estado pareciam suceder-se a um ritmo impressionante, o que também não ajudava nada. Um dia acordei e o Barroso já não ‘tava cá; tinha outro nome e parece que mandava era na Europa.
Vivia em imponderabilidade permanente.
Foi terrível! Eu já não percebia onde estava! Eu já não pensava mais!!!
Mas como o meu sentido crítico havia sido dissolvido pelas rimas miseráveis e as letras imbecis, nada disso também me ralava. O meu cérebro estava travado, não pensava em mais nada. Queria lá saber!
A fase negra ainda estava por vir: - Cheguei ao fundo do poço, ao limiar da condição humana, quando comecei a escutar o Zé Cabra e a achar que aquilo sim, era Cultura popular portuguesa! Comecei a ter delírios profundos e a dizer coisas sem sentido.
Fui cercado por outros drogados, usuários das drogas mais estranhas que queriam mostrar-me o caminho das pedras... A minha fraqueza era tanta que estive próximo de sucumbir aos radicais e ver todos os meus horários condicionados e dominados pela música pimba, pelo futebol, pelo álcool e pela mais poderosa droga do mercado: a Quinta das Celebridades.

Hoje estou internado numa clínica. Os meus verdadeiros amigos fizeram a única coisa que poderiam ter feito por mim. O meu tratamento está a ser muito duro:
Doses cavalares de canções e cantores portugueses de qualidade, sobretudo os que não posso encontrar facilmente na Rádio nem na TV. Fica-me trabalhoso e caro encontrar tão raros produtos naturais, mas são totalmente imprescindíveis para a minha recuperação. Se só ouvir as play lists ouço sempre mais do mesmo. Há pois que procurar “os intocáveis”.
Em relação a coisas lá de fora ando a tratar-me com Bossa-Nova, Rock antigo, Country, Beatles, Rhythm & Blues. Coisas assim. Redescobri os franceses Barbara, Brassens, Ferre, Becaud, Adamo. Ando a redescobrir a Piaf e o Brel. O velho Sinatra, o Regiani, o Serrat. O Paolo Conte, que eu até pensava que era um futebolista italiano. O Amâncio Prada que eu pensava que era um toureiro espanhol.
O médico disse-me que eu talvez tenha de recorrer ao Jazz, e até mesmo a Mozart, Vivaldi, Verdi, Rossini, Bach... Meia dúzia de sopranos por dia pela manhã e meia dúzia de tenores ao deitar. São antibióticos muito fortes que espero não me façam mal. Usei uma vez um chamado Manoel Oliveira e ia sucumbindo.
Agora tenho medo.
Tenho medo de sair de casa; mas também tenho medo de ficar em casa. Eles descobrem-me e oferecem-me drogas, insidiosa e diariamente pela Televisão.
Queria aproveitar a oportunidade e aconselhar as pessoas a não se entregarem a este tipo de droga. Os traficantes só pensam no dinheiro. Eles não se preocupam com a nossa saúde, por isso tapam a visão para as coisas boas e oferecem drogas. Com a conivência encapotada das mais altas instâncias intelectuais.
Se você não reagir, vai acabar drogado, alienado, inculto, manobrável, consumível, descartável, distante. Vai perder as referências culturais e definhar fatalmente. Vai trocar tudo o que é essencial pelo que é acessório. Vai pensar que Jorge de Sena, Eduardo Lourenço e Virgílio Ferreira são nomes de corredores da Sicasal. Vai viver para a fama efémera e a lantejoula dourada. Vai adular e consumir apenas produtos imbecis e seus derivados.
Em vez de encher a cabeça com porcaria, pratique desporto, faça muito sexo, leia um bom livro, conviva mais e, na dúvida, se não puder distinguir o que é droga ou não, faça o seguinte:

* Ligue a TV o menos possível – a imbecilidade anda à solta;
* Não escute nada que venha de multinacionais suspeitas;
* Se lhe derem um CD, procure saber a que programas de TV esse artista foi;
* Não compre um disco que tenha mais de 6 pessoas na capa;
* Não vá a shows em que os suspeitos façam coreografias certinhas e ensaiadas;
* Mulheres e adolescentes em geral gritando histericamente são outro indício;
* Não compre nenhum CD de capa encarnada, amarela e verde berrante;
* Se ouvir amor a rimar com dor, desconfie sempre;
* Não compre nenhum disco que tenha vendido mais de um milhão de cópias;
* Não escute nada em que o cantor não consiga falar português correcto e coerente;
* Duvide da qualidade tão apregoada das playlists - elas censuram todos os outros;
* Tente só ouvir música e canções de qualidade. Elas existem. Procure-as. São verdadeiros Centros de Apoio para a alma.

Mas, principalmente, duvide de tudo e de todos.
A vida é bela!!!! Eu sei que você vai conseguir!!!
Diga não às drogas!!

Por favor, ajudem a passar esta mensagem.

(Versão corrigida e adaptada para Portugal por APSCB)

Publicado por Luís Humberto Teixeira em dezembro 14, 2004 04:26 PM
Comentários

como li algures...'duas palavras,fantástico!' :)

Afixado por: rossana em janeiro 6, 2005 05:17 PM

ta fixe

Afixado por: em janeiro 7, 2005 10:24 PM

Deus é maravilhoso

Afixado por: em janeiro 7, 2005 10:26 PM