dezembro 03, 2004

Mudar de Hino? Porque não?

Achei curiosa a proposta de António Manuel Dias de mudar o Hino Nacional.

Sugere este programador informático que "A Portuguesa" seja posta de parte, sendo substituída por "Grândola, Vila Morena", canção que incita à fraternidade e ao respeito e que está intimamente ligada à luta do povo português pela liberdade, após quase cinco décadas de ditadura.

Já "A Portuguesa" é mais belicosa, ou não tivesse sido escrita em 1890 como resposta ao Ultimato do Império Inglês, que reclamou para si territórios ultramarinos portugueses situados entre Angola e Moçambique (aliás, originalmente não era "contra os canhões, marchar, marchar" mas "contra os bretões, marchar, marchar").

Ora, se Portugal já não tem colónias em África e até faz parte da União Europeia (onde também estão os ingleses), que sentido faz manter um Hino com semelhante origem?
Dada a presença de Portugal na UE - cujo "Hino da Alegria" exprime ideais de liberdade, paz e solidariedade -, não será mais coerente ter um Hino Nacional como "Grândola, Vila Morena"?

Além disso, do actual Hino Nacional quase todos os cidadãos conhecem apenas a primeira estrofe, enquanto que de "Grândola, Vila Morena" sabem certamente mais. Aliás, muita gente até sabe toda a letra da canção de Zeca Afonso, que é mais simples do que a escrita por Henrique Lopes de Mendonça.

Tenho para mim que um referendo a uma eventual alteração de hino seria bastante participado, mais não seja porque "a malta" ia querer ter uma palavra a dizer sobre a música a cantar antes dos jogos da Selecção Nacional! :-)

Seguem abaixo as letras de ambas as canções:

A Portuguesa
(Henrique Lopes de Mendonça / Alfredo Keil)

Heróis do mar, nobre povo,
Nação valente, imortal
Levantai hoje de novo,
O esplendor de Portugal
Entre as brumas da memória,
Ó Pátria sente-se a voz
Dos teus egrégios avós
Que há-de guiar-te à vitória.

Às armas! Às armas!
Sobre a terra e sobre o mar!
Às armas! Às armas!
Pela Pátria lutar!
Contra os canhões marchar, marchar!

Desfralda a invicta bandeira
À luz viva do teu céu
Brade a Europa à terra inteira
Portugal não pereceu!
Beija o solo teu jucundo
O oceano a rugir d'amor
E o teu braço vencedor
Deu mundos novos ao Mundo!

Às armas, às armas!
Sobre a terra sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra os canhões marchar, marchar!

Saudai o sol que desponta
Sobre um ridente porvir;
Seja o eco d'uma afronta
O sinal de ressurgir.
Raios d'essa aurora forte
São como beijos de mãe
Que nos guardam, nos sustêm,
Contra as injúrias da sorte.

Às armas, às armas!
Sobre a terra sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra os canhões marchar, marchar!


Grândola, Vila Morena
(José Afonso)

Grândola vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti ó cidade

Dentro de ti ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola vila morena

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade

Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade

Publicado por Luís Humberto Teixeira em dezembro 3, 2004 05:22 PM
Comentários

Confesso que a minha principal preocupação não é, nem de perto, nem de longe, a letra do hino, embora reconheça que, às vezes, também me causa engulhos. Por isso, não me oporia à sua alteração, se aprovada em referendo. Até porque, na desgraçada situação política, económica e social que vivemos, defendo o aumento do recurso ao referendo, como forma de reduzir os arbítrios e abusos da actuação dos partidos. De todos os partidos. Porém, neste como noutros casos, existe o perigo de a maioria da população ignorar, por completo, o referendo. É assunto que não mobiliza; não tem influência na resolução dos nossos problemas comuns. Acho que há matérias prioritárias, para consulta, aos cidadãos. Só depois podemos pensar em obter a necessária mobilização para matérias como esta!

Afixado por: Biranta em dezembro 4, 2004 01:38 PM

Também não me causava qualquer tipo de mágoa se
efectivamente fosse alterada a letra do Hino Nacional, mas creio que isso não seria muito pacífico. Por outro lado tenho a certeza que a nossa direita cada vez mais abominável não aceitaria de modo algum face à sua apetência belicista que se adoptasse a letra do Grandola
Vila Morena, que para eles é um hino de extrema esquerda.

Afixado por: congeminações em dezembro 4, 2004 09:41 PM

Obviamente, existem assuntos mais urgentes no país que o hino. Os nossos males não surgem das canções que cantamos, mas da música que nos dão...

Eu só toquei no assunto porque vi esta proposta e porque me pareceu que a mudança se justificava por uma questão de coerência, tanto com a UE como com o próprio regime actual, que teve origem no 25 de Abril e não na I República.

Afixado por: Luís Humberto Teixeira em dezembro 5, 2004 03:57 PM

já António Alçada Baptista o propõs com evidente falhanço. Há meses escrevi sobre isso, sou contra - no hino não interessa muito o que se canta (ainda que basto desactualizado), nem a melodia. Sendo símbolo apela a muito mais do que o literal. Mas enfim, é legítimo discuti-lo

Afixado por: jpt em dezembro 7, 2004 12:43 PM

Cada povo tem o hino que quer.

Se "A Portuguesa" foi escrita num contexto histórico de reacção colérica e incapaz do nosso imperialismo perante o imperialismo-mor de então, "Grândola Vila Morena" foi desenhada por José Afonso antes do 25 de Abril, quando as mensagens tinham que ser bem subliminares e apenas se tornou a mais conhecida das canções do Zeca porque acabou em senha para fazer avançar os "os heróis do mar" que estavam fartos de ver a sua vida terminada numa mata perdida de África.

Depois de Abril de 1974, a "Grândola" foi cantada nas ruas, em cantos-livres, comícios e manifestações de todos os partidos, da direita à esquerda.
Sim, é verdade, também muita gente do CDS e do PSD a cantou, eu vi: uns porque achavam que a canção não tinha a "força" que a esquerda imaginava e outros porque era conveniente - ao fim e ao cabo, todos eles defendiam o "social", com ou sem "ismo", e eram "populares". Repare-se, por exemplo, nos nomes originais dos partidos de direita: Partido POPULAR DEMOCRÁTICO - o termo "democracia popular" estava muito na moda; Centro DEMOCRÁTICO E SOCIAL - de "democracia social" era do que mais se falava. Confundidos?

Por essas alturas houve quem propusesse substituir "A Portuguesa" por "Grândola", "Não faças propostas dessas, camarada, que estás a favorecer a reacção porque a direita depois diz que a seguir queres tirar o verde da bandeira..." Topam?

Entretanto, a revolução acabou. Com a retoma da normalidade os "símbolos nacionais" passaram a ser defendidos com unhas e dentes, ao ponto de, na RTP, terem acabado com um programa juvenil do actor João Grosso, por este se ter atrevido a cantar o hino em ritmo hard-rock.

Cá para mim acho este hino apropriado ao país que somos. Se a "Grândola" algum dia tivesse sido adoptada como hino nacional, há muito que a letra estaria descaracterizada por uma porrada de "revisões", tal como a Constituição.

"Marchemos" então ao som da tradiconal banda sonora nacional, debaixo de bandeiras em que os escudos têm castelos que são fogareiros ou pagodes chineses da loja dos trezentos porque, ao fim e ao cabo, é isto que somos.

Afixado por: José Tavares da Silva em janeiro 8, 2005 02:36 AM

acho que não se devia mudar hino nenhum porque a maioria das pessoas sá sabe as duas primeiras frases de "Grândola, Vila Morena" eu por exemplo só sei as duas primeiras frases enquanto que sei toda a letra de " A Portuguesa"

Afixado por: em janeiro 8, 2005 03:14 PM