Nos últimos dias, o excesso de coisas para fazer tem-me retirado a inspiração para escrever.
Pensando melhor, talvez não seja uma questão de inspiração, mas antes uma consequência natural do trabalho, esse elemento perturbador da análise profunda, do comentário reflectido e, acima de tudo, da criatividade.
Se assim for, tenho de dar os parabéns ao actual governo, pois tem feito muito pela vida cultural do país, ao libertar tantos portugueses desse fardo intelectual que é o emprego pleno.
Se em alguns ministérios o executivo PSD/CDS-PP tem governado para o curto prazo - veja-se a alienação de património nas Finanças -, na Cultura o trabalho está a ser feito a longo prazo, com a ajuda preciosa de Bagão Félix e Carlos Tavares.
Pedro Roseta é o coordenador desse projecto ambicioso, que envolve todos os ministros e até o insuspeito comentador político Luís Delgado, encarregue de espicaçar a massa cultural em construção com tiradas sobre a passagem da Cultura a mera secretaria de Estado.
Parecendo que não, Durão Barroso e Manuela Ferreira Leite também fazem a sua quota parte neste trabalho de fundo pela cultura lusitana, povoando as mentes dos portugueses com figuras imaginárias como o "Choque Fiscal", a "Retoma" e o "Equilíbrio das Contas Públicas".
E é assim - libertando meio milhão de portugueses dos grilhões intelectuais do trabalho e alimentando o seu imaginário ficcional - que este executivo está no bom caminho para garantir a expansão e diversificação cultural do país.
Com tanto tempo livre e tanta matéria-prima, os portugueses vão sentir despertar a sua veia artística e dedicar-se à literatura, ao cinema, à música, à pintura, à escultura, à dança, ao teatro, à banda desenhada... mas encarando-as sempre como artes de rua, porque as casas, essas, não se pagam com a imaginação.
Publicado por Luís Humberto Teixeira em março 19, 2004 09:21 PM