março 15, 2004

Eleições em Espanha: O roubo à IU

Um partido que é o terceiro em votação, nunca pode ser o sexto em representação parlamentar. Ou pode?
Por incrível que pareça é verdade e foi o que aconteceu em Espanha com a Izquierda Unida (IU). Merecendo os votos de 1.269.532 espanhóis, a força liderada por Gaspar Llamazares subiu ligeiramente a sua votação global, embora percentualmente e em número de deputados tenha tido um resultado inferior ao das eleições de 2000.

Mas, se a IU subiu em número de votos, como é que desceu a nível de representação? A resposta mais vulgar, e usada pela maioria dos analistas, é que a votação massiva no PSOE concentrou os votos à esquerda.
Mas essa é uma resposta à "especialista instantâneo", de quem comenta os factos sem analisar os dados que tem ao seu dispor, e sem questionar os vícios que o jogo tem logo à partida.

A IU perdeu representatividade no Congresso espanhol porque dois terços dos votos que recebeu não foram traduzidos em mandatos. E neste caso, o culpado é um só: o sistema eleitoral espanhol.

O sistema de eleição foi uma das razões que levou Marcelo Rebelo de Sousa a comentar as primeiras projecções de vitória para o PSOE com cautela, dizendo mesmo que o PP ainda tinha hipóteses de vencer, pois "quem conhece o sistema, sabe que nem sempre ganha mais lugares aquele que tem mais votos".

E é assim, pelo sistema eleitoral, que se explica que um milhão e 270 mil votos depositados na IU tenham conseguido eleger 5 deputados, enquanto o Partido Nacional Vasco pôs 7 dos seus no Congresso com 420 mil votos - três vezes menos que a votação da IU!

Aliás, a IU viu mesmo serem ignorados na atribuição de mandatos 828.080 dos votos que recebeu, número muito próximo da votação total da CiU, partido regional da Catalunha, que elegeu 10 deputados.

"Cada país sabe o sistema eleitoral que mais lhe convém e nós não temos nada a ver com isso", dirão muitos leitores de Portugal. Mas a esses fica desde já o alerta: tal como o espanhol, o sistema eleitoral português ignora demasiados votos no momento de atribuir mandatos.

Publicado por Luís Humberto Teixeira em março 15, 2004 08:57 PM
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