Depois de dar alguns conselhos aos sete maiores grupos de eleitores em Portugal (excluindo os que optam pelo voto branco ou nulo ou pela abstenção), convém dar a explicação que falta: como é que se sabe que 715.676 portugueses votaram em vão nas Legislativas 2002?
É uma questão de contas, como diria o sr. engenheiro.
Este desperdício de milhares de votos é usual em sistemas de democracia representativa, devido aos métodos de apuramento dos mandatos.
Nas Legislativas 2002 esse desperdício cifrou-se em 715.676 votos, os quais não foram contabilizados para atribuição de mandatos. Isto representa 13,34% dos escrutínios válidos, ou seja, um em cada 7,5 portugueses.
E agora vêm as contas:
O apuramento dos mandatos de deputado faz-se de acordo como o método de Hondt. Pois bem, primeiro temos de multiplicar o valor da última série de Hondt pelo número de mandatos obtido por cada partido. Em seguida, subtraímos o total de votos conseguidos por essa força política e já está.
Um exemplo prático:Em Viana do Castelo, PSD e PS obtiveram três mandatos cada. A última série de Hondt – relativa ao derradeiro mandato de deputado atribuído por este círculo – corresponde a 16.374 votos.
Seguindo a fórmula, vamos multiplicar estes 16.374 por três, o que é igual a 49.122. A este valor vamos subtrair os 63.386 votos do PSD e os 49.122 do PS.
E assim descobrimos que o PS não desperdiçou qualquer voto, enquanto 14.364 eleitores votaram PSD em vão, pois a sua opinião não foi contabilizada em mandatos.
Nos restantes partidos desperdiçaram-se todos os votos, dado que não foram convertidos em mandatos.
Aplicando esta lógica aos 22 círculos eleitorais, temos que 715.676 eleitores votaram em vão, pelo que a constituição do hemiciclo foi definida por 4.649.401 portugueses.
Desses, 2.086.485 foram responsáveis pelos 105 mandatos do PSD, enquanto 301.950 elegeram os 14 deputados do CDS-PP. Ou seja, o nosso actual governo tem a representação parlamentar que tem devido a 2.388.435 eleitores, ou seja, menos de um quarto da população total do país.